06
Ago 07

A primeira vocação de Henri Antoine Groués (este é o nome de baptismo do Abbé Pierre) foi franciscana: ingressou na ordem dos capuchinhos, mas saiu poucos anos depois, por motivos de saúde, sendo admitido no clero de uma diocese francesa. A sua alma ficou sempre fortemente marcada pelo amor à pobreza e aos mais desprotegidos. Viveu os primeiros anos de sacerdócio no período da Segunda Guerra Mundial, dedicando-se ao salvamento de pessoas da polícia secreta nazi: falsificava passaportes, e ajudava judeus e cidadãos da Polónia a passar a fronteira. Organizou um grupo de resistência armada até ser preso, mas conseguiu fugir escondido num saco do correio, num avião para a Argélia.

Em 1949, já enquanto deputado Abbé Pierre vivia numa casa que ele próprio restaurou e onde começou a caminhada de Emmaús, acolhendo pessoas com dificuldade, desde jovens a indivíduos sem-abrigo. Foi no decorrer deste ano que fundou o que viria a ser Emmaús Internacional, iniciativa que parte de um momento crucial na sua vida, o encontro com George Legaey no momento em que este estava quase a suicidar-se. Emaüs nasce como uma iniciativa que pretende “ agir para que cada pessoa, sociedade ou nação possa viver e afirmar-se num mundo de partilha e de dignidade igualitária.”




Em 1951, Pierre deixa a Assembleia Nacional por protesto contra uma lei eleitoral. De agora em diante, dedica-se inteiramente ao Movimento Emaüs, que havia iniciado dois anos antes. A sua actividade dividia-se entre a multiplicação das Comunidades Emaüs e contínuas viagens, palestras e encontros, lançando campanhas em favor dos mais desprotegidos, encontrando-se com chefes de estado e representantes das mais diversas Igrejas e religiões.




Em 1953, a Associação Emaüs é criada com vista a organizar o movimento. Apesar de ser uma associação fundada por um padre cristão, ela mantêm-se neutra a nível religioso, de modo assegurar a admissão de pessoas de todas as etnias ou religiões, prestando auxílio a todos aqueles que necessitam independentemente de tudo o resto.

A seguir à destruição provocada pela Segunda Grande Guerra, revoltado ao constatar que num país rico como a França morriam, devido ao frio, pessoas que dormiam na rua, falou aos microfones da Rádio Luxemburgo (RTL), para recolher apoio e salvar os mais pobres de uma morte certa. Chocou a França, ao contar a história de uma mulher que morrera na rua segurando um papel ordenando a sua expulsão do abrigo donde se encontrava anteriormente. Deu-se o que viera a ser chamada a “Insurreição da Bondade”, surgindo uma enorme vaga de solidariedade, angariando-se cerca de 2 000 toneladas de mantimentos, que até serviram depois para ajudar a alicerçar o movimento. Começou, um longo período onde Abbé Pierre ganhou peso não só na opinião pública, como também no poder político.

Nos dias a seguir a esta grande iniciativa, são fundadas as instituições basilares de Emaüs: HLM Emmaüs, Association d’Emmaüs et Confédération générale du Logement e SOS Famille Emmaüs.




 

Em 1984 dá-se mais um acontecimento importantíssimo para a vida de Abbé Pierre. Num Inverno terrível, morrem por hipotermia, frio ou problemas psicológicos cerca de 50 pessoas sem-abrigo. Afinal, 30 anos depois daquele Inverno que depois levara ao despoletar de Emaüs, a França falhara em matéria de realojamento. De novo, Abbé Pierre aparece como a voz da revolta contra a miséria social, apoiado pelo jornal “ France Soir” lança uma campanha mediática que mobilizara novamente os franceses para a resolução destes problemas. As Comunidades Emaüs formadas por companheiros e voluntários de Neuilly-Plaisance, Neuilly-sur-Marne, Plessis-Trévise, de Bougival e de Bernes-sur-Oise, tentaram responder a esta crise, distribuindo mantimentos na capital francesa.





Abbé Pierre vivera o resto dos seus dias numa comunidade junto com pessoas idosas e doentes do Movimento, esperando “as grandes férias”, como ele definia a viagem definitiva. Porém, não ficava trancado. Quando alguma necessidade o chamava, saía para defender os direitos dos imigrantes, dos que não têm casa, ocupando praças e casas não alugadas, obrigando as autoridades a encontrarem uma solução definitiva.

Fez várias publicações pessoais, e em conjunto com o ex-ministro da saúde francês Bernard Kouchner escreveu o livro "Deus e os homens" (Dieu et les hommes).

Neste ano em que ele parte, deixa uma congregação de vários movimentos Emaüs presentes em vários países de quatro continentes, complementando o esforço dos membros de Emmaús com os voluntários, agindo não só no domínio social, mas também ao nível político, lutando contra a escravatura moderna e as descriminações sociais, e pelo realojamento dos refugiados vítimas de todo o tipo de catástrofes.


 

publicado por grupo de jovens de Emaús às 22:00

05
Ago 07
Hoje deixo aqui dois pequenos vídeos de homenagem ao fundador do movimento de Emaús .
A primeira parte do  primeiro vídeo são as palavras proferidas por este  homem a alertar o mundo para a situação que estava a passar-se aos olhos de toda a gente. Pessoas que viviam nas ruas estavam a morrer de frio no rigoroso Inverno de 1954.
Uma homenagem mais do que merecida àquele que foi tantas vezes a voz dos que não tinham voz.


publicado por grupo de jovens de Emaús às 18:55

03
Ago 07


A história de Willie,

 

Saudações! O meu nome é Willie e cheguei a Emaüs Abril passado, no meu dia de anos para ser exacto, após um época passada na rua, dormindo ao relento nas ruas de Liverpool e St Albans durante um mês e meio.

Quem me falou de Emmaús foi um outro sem-abrigo que guardara boas recordações da sua passagem por lá e que, como eu, tivera problemas relacionados com o álcool. Dormir ao relento é uma experiência muito perigosa e puxada, principalmente à noite. O facto de termos sido atacados e maltratados fez-nos procurar refúgio em Emmaús. O nosso primeiro contacto foi com a comunidade de Gloucester, para ver se eles nos aceitavam, como o acabaram por fazer de uma forma tão acolhedora que eu desejara ter ouvido falar de Emmaús mais cedo.

Pouco tempo após termos chegado, comecei a guiar uma das carrinhas que eles usam para fazer recolhas de vários objectos em casa das pessoas, que após serem reciclados são vendidos nas lojas abertas ao público, sendo essa a sua maior fonte de rendimento.

Eles ajudaram-me a voltar a ter respeito por mim e pelo o meu valor, que infelizmente tinha desaparecido há muito. Fiquei espantado com a quantidade de serviços que eles dispunham para ajudar os companheiros, que como eu, tinham problemas de reintegração na sociedade. Senti me seguro, uma vez que havia uma grande preocupação com a discriminação e falta de confidencialidade que pudesse existir.

A vida não me correra bem, em Março, devido ao meu problema de bebida, deixei a minha casa, o meu negócio, mas mais importante do que isso, a minha mulher e os meus filhos, eles não sabem onde estou, fui dado como desaparecido na Irlanda e no Reino-Unido.

No dia 8 de Agosto, Giorgio (Director da Comunidade Emaüs de Gloucester) contactou-me e disse-me que a minha família andava a minha procura. Não sei se conseguem imaginar o choque que foi para mim receber esta notícia, visto que nunca tinha discutido este assunto tão delicado com ninguém da comunidade. Ele foi decisivo para me convencer a comunicar à minha família que estava vivo e seguro.

Após uns meses, consegui combinar com a minha mulher um reencontro. De novo, foi Emaüs que nos apoio, dando-nos o tempo e o espaço necessário para conseguirmos reconstruir a nossa vida. Ficamos na comunidade, e tal como eu, a minha mulher foi muito bem recebida.

Nunca conseguirei agradecer a Emaüs por toda ajuda, carinho e companheirismo que me deu enquanto permaneci com eles. Já estou em casa com a família há três meses. A nossa vida parece finalmente reencaminhada contando com a ajuda de familiares e amigos, o futuro parece sorrir para nós.

publicado por grupo de jovens de Emaús às 19:20

02
Ago 07

Online in http://dn.sapo.pt/2007/02/04/opiniao/abbe_pierre_o_insurrecto_deus.html a 6 de Maio de 2007:

Opinião do Padre e Professor de Filosofia Anselmo Borges sobre Abbé Pierre:

No dia 29 de Dezembro passado, vi--me apanhado na rua por dois jornalistas: "Qual é a figura do ano?" Perante aquela espera inesperada e o meu silêncio, diz um: "Pela positiva ou pela negativa." Aí, mais aliviado, respondi: "Pela negativa, George W. Bush. Porque não está à altura das suas responsabilidades mundiais. Avançou para a guerra do Iraque, uma guerra de consequências imprevisíveis."

Depois, reflecti que poderia ter respondido pela positiva. Havia, por exemplo, Muhammad Yunus, o "banqueiro dos pobres", que criou o Grameen Bank e impôs a ideia de que o microcrédito ajuda a mudar a face do mundo. Ao receber o Prémio Nobel da Paz, foi claro: "As frustrações, a hostilidade e a cólera geradas por uma pobreza abjecta não podem assegurar a paz em nenhuma sociedade."

Porque será que são sobretudo os erros, os desastres, as guerras, a maldade a ocupar os noticiários?

De qualquer forma, o positivo supera o negativo e a bondade a maldade e os seres humanos são sensíveis à generosidade.

O abbé Pierre era há muito a figura mais popular entre os franceses.
A França pôs luto pela sua morte. A missa do funeral foi transmitida pela televisão e à última homenagem compareceram o Presidente, o primeiro-ministro e praticamente todo o Governo.

Nasceu em 1912 em Lyon. Aos 19 anos, entrou nos Franciscanos Capuchinhos. Durante a ocupação nazi, viveu na clandestinidade, ajudando judeus e resistentes. Foi deputado de 1945 a 1950. Criou em 1949 a primeira comunidade Emaús, ao serviço dos sem-abrigo e dos mais desfavorecidos - o termo faz alusão ao passo do Evangelho que narra a aparição de Cristo ressuscitado aos dois peregrinos de Emaús, que o acolheram em casa. A partir de 1971, o movimento alcançou dimensão planetária - os Companheiros de Emaús actuam em 40 países.

Com a guerra, a França ficou devastada. Se a partir de 1952 o crescimento económico se acelerou extraordinariamente, as desigualdades eram profundas no plano social e notórias sobretudo ao nível do alojamento. O Inverno de 1954 foi particularmente duro, tendo sido nesse contexto que o abbé Pierre lançou o famoso apelo radiofónico de 1 de Fevereiro a favor dos sem-abrigo, que desencadearia o que chamou uma "insurreição da bondade". Nos centros de acolhimento, lia-se: "Tu que sofres, sejas quem fores, entra, dorme, come, retoma a esperança, aqui, és amado."

Era um padre de oração e de acção a favor dos pobres e da dignidade. Dele disse o Presidente francês: "Representará sempre o espírito de revolta contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, e a força da solidariedade."

Era um homem de espírito livre e crítico, mesmo no domínio da fé. No seu último livro, Meu Deus, Porquê?, ousa perguntar a Deus até quando vai durar esta tragédia do incrível sofrimento humano. Declara que a concepção expiatória da morte de Cristo é "horrível", pois levou também ao dolorismo, "uma abominação e uma caricatura da vida cristã". Depois de confessar que teve relações sexuais com mulheres, embora "de forma passageira", coloca "a questão crucial para a Igreja do casamento dos padres e da ordenação de homens casados", esperando que Bento XVI permita a comunhão aos católicos divorciados recasados. Porque não utilizar a palavra "aliança" para os casais homossexuais, que "viveram frequentemente o seu amor na exclusão e na clandestinidade"? A ordenação das mulheres é "muito provável" e "desejável".

Considerava "absurdo" que Deus apenas se revelasse e salvasse a pequeníssima parte da humanidade constituída pelos baptizados. Nada permite afirmar que o inferno existe. Defensor da laicidade, opunha-se ao regime de "cristandade" e pensava que "o papado reflecte ainda o rosto do papa-imperador", sendo necessário "libertar a Igreja da tutela romana sobre todas as Igrejas locais". Lembrando as "cruzadas" e os seus efeitos, alertou para o perigo de "responder à terrível provocação dos terroristas da Al-Qaeda com uma nova cruzada".

Admirador de Teilhard de Chardin, que soube reconciliar a visão cristã com a teoria evolucionista, sonhava com a capacidade da Teologia para reler e reinterpretar, por exemplo, a doutrina do "pecado original" ou a "transubstanciação" - palavra "um pouco bárbara" -, a substituir por "Presença". Afinal, "as coisas últimas só em linguagem poética se podem dizer".

Tinha como lema: "Viver é aprender a amar", punha a compaixão "no cume das virtudes" e definia a morte como "o encontro com o Absoluto, o Eterno". Para ele, foi em 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos.

publicado por grupo de jovens de Emaús às 21:57

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