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Online in http://dn.sapo.pt/2007/02/04/opiniao/abbe_pierre_o_insurrecto_deus.html a 6 de Maio de 2007:

Opinião do Padre e Professor de Filosofia Anselmo Borges sobre Abbé Pierre:

No dia 29 de Dezembro passado, vi--me apanhado na rua por dois jornalistas: "Qual é a figura do ano?" Perante aquela espera inesperada e o meu silêncio, diz um: "Pela positiva ou pela negativa." Aí, mais aliviado, respondi: "Pela negativa, George W. Bush. Porque não está à altura das suas responsabilidades mundiais. Avançou para a guerra do Iraque, uma guerra de consequências imprevisíveis."

Depois, reflecti que poderia ter respondido pela positiva. Havia, por exemplo, Muhammad Yunus, o "banqueiro dos pobres", que criou o Grameen Bank e impôs a ideia de que o microcrédito ajuda a mudar a face do mundo. Ao receber o Prémio Nobel da Paz, foi claro: "As frustrações, a hostilidade e a cólera geradas por uma pobreza abjecta não podem assegurar a paz em nenhuma sociedade."

Porque será que são sobretudo os erros, os desastres, as guerras, a maldade a ocupar os noticiários?

De qualquer forma, o positivo supera o negativo e a bondade a maldade e os seres humanos são sensíveis à generosidade.

O abbé Pierre era há muito a figura mais popular entre os franceses.
A França pôs luto pela sua morte. A missa do funeral foi transmitida pela televisão e à última homenagem compareceram o Presidente, o primeiro-ministro e praticamente todo o Governo.

Nasceu em 1912 em Lyon. Aos 19 anos, entrou nos Franciscanos Capuchinhos. Durante a ocupação nazi, viveu na clandestinidade, ajudando judeus e resistentes. Foi deputado de 1945 a 1950. Criou em 1949 a primeira comunidade Emaús, ao serviço dos sem-abrigo e dos mais desfavorecidos - o termo faz alusão ao passo do Evangelho que narra a aparição de Cristo ressuscitado aos dois peregrinos de Emaús, que o acolheram em casa. A partir de 1971, o movimento alcançou dimensão planetária - os Companheiros de Emaús actuam em 40 países.

Com a guerra, a França ficou devastada. Se a partir de 1952 o crescimento económico se acelerou extraordinariamente, as desigualdades eram profundas no plano social e notórias sobretudo ao nível do alojamento. O Inverno de 1954 foi particularmente duro, tendo sido nesse contexto que o abbé Pierre lançou o famoso apelo radiofónico de 1 de Fevereiro a favor dos sem-abrigo, que desencadearia o que chamou uma "insurreição da bondade". Nos centros de acolhimento, lia-se: "Tu que sofres, sejas quem fores, entra, dorme, come, retoma a esperança, aqui, és amado."

Era um padre de oração e de acção a favor dos pobres e da dignidade. Dele disse o Presidente francês: "Representará sempre o espírito de revolta contra a miséria, o sofrimento, a injustiça, e a força da solidariedade."

Era um homem de espírito livre e crítico, mesmo no domínio da fé. No seu último livro, Meu Deus, Porquê?, ousa perguntar a Deus até quando vai durar esta tragédia do incrível sofrimento humano. Declara que a concepção expiatória da morte de Cristo é "horrível", pois levou também ao dolorismo, "uma abominação e uma caricatura da vida cristã". Depois de confessar que teve relações sexuais com mulheres, embora "de forma passageira", coloca "a questão crucial para a Igreja do casamento dos padres e da ordenação de homens casados", esperando que Bento XVI permita a comunhão aos católicos divorciados recasados. Porque não utilizar a palavra "aliança" para os casais homossexuais, que "viveram frequentemente o seu amor na exclusão e na clandestinidade"? A ordenação das mulheres é "muito provável" e "desejável".

Considerava "absurdo" que Deus apenas se revelasse e salvasse a pequeníssima parte da humanidade constituída pelos baptizados. Nada permite afirmar que o inferno existe. Defensor da laicidade, opunha-se ao regime de "cristandade" e pensava que "o papado reflecte ainda o rosto do papa-imperador", sendo necessário "libertar a Igreja da tutela romana sobre todas as Igrejas locais". Lembrando as "cruzadas" e os seus efeitos, alertou para o perigo de "responder à terrível provocação dos terroristas da Al-Qaeda com uma nova cruzada".

Admirador de Teilhard de Chardin, que soube reconciliar a visão cristã com a teoria evolucionista, sonhava com a capacidade da Teologia para reler e reinterpretar, por exemplo, a doutrina do "pecado original" ou a "transubstanciação" - palavra "um pouco bárbara" -, a substituir por "Presença". Afinal, "as coisas últimas só em linguagem poética se podem dizer".

Tinha como lema: "Viver é aprender a amar", punha a compaixão "no cume das virtudes" e definia a morte como "o encontro com o Absoluto, o Eterno". Para ele, foi em 22 de Janeiro de 2007, aos 94 anos.

publicado por grupo de jovens de Emaús às 21:57

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